"Escrever é comover para desconvocar a angústia
e aligeirar o medo...
Ama-se a palavra
usa-se a escrita
despertam-se
as coisas do silêncio
em que foram criadas."
(Agustina Bessa-Luís)
"Com palavras tenho asas que me levam a voar com palavras vou tão longe quanto o sonho me levar." José Fanha
"Escrever é comover 
Os motivos para dizer P.S.:Amo-te!
Tenho saudades tuas!
Não te esqueças de mim!
Escreve depressa.
Consegui o emprego!
Estás sempre comigo!
Volta logo!
Tem cuidado!
Já li o livro que me ofereceste. Adorei!
Traz-me chocolates!
Há livros que nos tocam
Era uma vez um livro de histórias cheio de letras como todos os livros. estava guardado na prateleira de uma estante, num armário ao fundo de uma casa e há muito tempo que ninguém lhe pegava para o folhear e o ler.
Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto no céu, e alegrar quem o observasse. Um dia, uma mulher viu o pássaro e apaixonou-se por ele. Ficou a olhar o seu voo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rapidamente, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em plena harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro. Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo por outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássao. E sentiu-se sozinha. E pensou : "Vou montar uma armadilha. Da próxima vez que o pássaro surgir, ele não partirá mais." O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola. Todos os dias ela olhava o pássaro. ali estava o objecto da sua paixão, e ela mostrava-o às suas amigas, que comentavam: "Mas tu és uma pessoa que tem tudo." Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro, e já não precisava de o conquistar, foi perdendo o interesse. O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido da sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio - e a mulher já não lhe prestava atenção, apenas prestava atenção à maneira como o alimentava e como cuidava da sua gaiola. Um belo dia, o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e passava a vida a pensar nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens. Se ela se observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico. Sem o pássaro, a sua vida também perdera o sentido, e a morte veio bater à sua porta. "Porque vieste?" perguntou à morte. " Para que possas voar de novo com ele nos céus", respondeu a morte. "Se o tivesses deixado partir e voltar sempre, amá-lo-ias e admirá-lo-ias ainda mais; porém, agora precisas de mim para poderes encontrá-lo de novo." |

Era uma vez um camponês gordo e feio que se tinha apaixonado (porque não?) por uma princesa bonita e loira... Um dia, a princesa - vá lá saber-se porquê - deu um beijo ao camponês gordo e feio... E, magicamente, este transformou-se num príncipe esbelto e ataviado. (Pelo menos, era assim que ela o via...) (Pelo menos, era assim que ele se sentia...) |

Quando nos encontramos com alguém e nos apaixonamos,
temos a impressão de que
todo o Universo está de acordo;
hoje eu vi isso no pôr do Sol.
No entanto, se algo corre mal, não sobra nada!
Nem as graças, nem a música ao longe,
nem o sabor dos lábios dele.
Como é que pode desaparecer
tão rapidamente
a beleza
que ali estava há poucos minutos?
A vida é muito veloz:
faz-nos ir do céu
ao inferno
numa questão de segundos.
É preciso ler: é uma petição de princípio para os ouvidos dos adolescentes. Por mais brilhantes que sejam as nossas demonstrações, não passa de um apetição de princípio.
"Apareceu então certa mulher, conhecida na cidade como pecadora. ela, sabendo que Jesus estava à mesa em casa do fariseu, levou um frasco de alabastro com perfume. A mulher colocou-se por trás, chorando aos pés de Jesus; com as lágrimas começou a balhar-Lhe os pés. Em seguida, enxugava-os com os cabelos, cobria-os de beijos e ungia-os com perfume. Vendo isso, o fariseu que havia convidado Jesus pensou: "Se este homem fosse mesmo um profeta, saberia que tipo de mulher Lhe está a tocar, porque é pecadora."
Entretanto, continuava a ler. lia muito. A realidade. Os livros. Procurava entender o que viam e diziam outros corações. As histórias, sobretudo as baseadas na vida, tal como ela palpitava, encantavam-me. Completamente. Tão completamente, que lia uma. Avidamente. Depois outra. De um fôlego. Que prazer! E mais outra. Que prazer! E outra. E outra. Que prazer! Voltava atrás num capítulo. Sabia partes de outro de cor. E, quando alguma me tocava mais profundamente, então é que era! Além de sublinhar certas frases, escrevia o que pensava, aprendera, ou aquilo que essa história me fizera enxrgar dentro de mim própria nas margens do livro (que se sabe não serem para isso. Mas talvez até se sentissem melhor assim...) Como eu conversava com as passagens que me agradavam mais! Conversa, pois! Claro que, quanto maior era a minha intimidade com a história, mais as margens e eu própria ficávamos preenchidas. |
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"Quando perdemos para os Castros o concurso de construção e exploração de três novos supermercados, o meu pai despediu-te, Inês, e a Constança riu-se na minha cara com uma crueldade de que não a julgava capaz. Mas nós flutuávamos acima de todas as realidades. Tínhamos um nundo só nosso, de deslumbramento, de êxtase, de indiferença por tudo o que não fosse o contacto das nossas mãos, a proximidade dos nossos hálitos, o segredo das nossas vozes. E se o amor físico não era total, visto que essa era uma decisão só tua que eu respeitava como se respeita um dogma, havia um envolvimento do calor da pele, do roçar das roupas, das batidas do coração, dos gestos sugeridos, das palavras não ditas, dos olhares, dos sorrisos, dos enleios. Estava disposto, sim, a respeitar a tua decisão como estava determinado a transgredir esse vínculo a que o baptismo do meu filho Luís, morto no berço, nos obrigava, de parentesco e compadrio. Desafiava as leis da Igreja em nome das leis da Natureza. Iria contra tudo e contra todos, contra os homens, contra o Rei e contra Deus, para poder cumprir esta paixão fatal, na hora em que tu quisesses receber-me. Uma palavra tua e nenhum sacrilégio seria impedimento ao meu amor. Então, tentando lutar contra este vendaval com armas que já não tinhas, interpuseste entre nós o frágil obstáculo da distância, e partiste para Albuquerque, para a Galiza, para a casa de teus irmãos, a desfiar saudades do teu príncipe nesse pátio interior, onde um dia te achei a bordar borboletas e me tornei teu escravo e te perdi." |
